Quando o mercado e a academia constroem juntos o futuro do seguro
Escrito por: Horiens - 27/04/2026
Por Eduardo Damião e Marcio Santos
Tomar decisões em ambientes de incerteza é uma das competências mais exigidas de qualquer organização. Quando os riscos são complexos, de grande impacto e, muitas vezes, pouco tangíveis, decidir deixa de ser apenas uma escolha executiva e passa a exigir análise estruturada, modelagem probabilística e visão estratégica.
Foi a partir dessa perspectiva que participamos do Hackathon de Seguros da Fundação Getulio Vargas, realizado entre os dias 13 e 17 de abril, em São Paulo (SP). E podemos dizer que saímos do evento com mais do que levamos.
O formato do hackathon colocou estudantes do 4º semestre do curso de Administração de Empresas diante de problemas reais do setor segurador, com o desafio de desenvolver soluções em poucos dias.
Para nós, representar a Horiens nesse ambiente teve um significado muito maior do que de uma simples apresentação ou representação institucional. Foi um exercício de escuta, de tradução e de reconexão com o que motivou muitos de nós a escolher esse mercado.
O que levamos e o que encontramos
Ao longo das sessões, compartilhamos com os grupos de estudantes como a Horiens atua na prática: partindo sempre de uma leitura aprofundada das exposições do cliente para, só então, propor caminhos.
Não há receita pronta. Cada risco tem uma lógica própria, e nosso papel como advisor é justamente ajudar as organizações a entender o que estão enfrentando antes de decidir o que fazer com isso, ou seja, o que reter, o que transferir, em que nível de preço, se vale estruturar uma reserva interna ou contratar um seguro. Esse repertório, que desenvolvemos ao longo de mais de 45 anos de trabalho apoiando grandes empresas e desafios de negócios, foi recebido pelos estudantes como algo novo e, ao mesmo tempo, muito concreto.
Já do nosso lado, de quem já atua há anos e anos no setor, capturamos desta interação com os jovens estudantes toda a potência do que é olhar para um desafio pela primeira vez. Afinal, para eles, o setor de seguros era um campo aberto, de certa forma desconhecido, ou reduzido ao que conhecemos do seguro auto, por exemplo.
E isso não é por acaso. O Brasil ainda tem uma cultura de seguros pouco desenvolvida, com apenas 20% da população brasileira contratando alguma modalidade de seguro. O mercado segurador representa aproximadamente 6% do PIB, ainda abaixo de países como Estados Unidos, Coreia do Sul, Inglaterra e Dinamarca, onde o segmento supera os 10%. Não se trata apenas de uma oportunidade de mercado.
É um déficit real de proteção para famílias, empresas e infraestrutura. Um setor segurador mais forte significa menos vulnerabilidade a eventos climáticos, menos empresas descapitalizadas após sinistros, mais previsibilidade para investimentos de longo prazo. A própria CNseg tem como meta que o setor represente 10% do PIB até 2030, o que dá a dimensão do espaço que ainda existe para crescer.
O desafio de simplificar
Um dos diagnósticos que ficaram mais evidentes ao longo do hackathon é que o setor de seguros ainda enfrenta um problema de comunicação. Produtos complexos, contratos densos e linguagem técnica que afasta em vez de aproximar. Esse distanciamento é um problema estrutural que limita o acesso, reduz a percepção de valor e fragiliza a relação com o cliente. Sem dúvida, essa é uma das grandes “dores” do setor.
Parte do nosso trabalho – e, pelo que percebemos, também o que mais chamou a atenção dos estudantes – é exatamente de traduzir ou simplificar o universo de seguros. Estamos falando de transformar uma análise técnica em linguagem de negócio, em argumento que faça sentido para quem precisa tomar uma decisão e justificá-la internamente.
Não é coincidência que as propostas que mais se destacaram no hackathon foram aquelas que conseguiram fazer essa ponte. O problema técnico estava lá, mas a solução era comunicacional e relacional.
Intercâmbio empresas x academia
Sabemos que muitas vezes o caminho mais fácil ou provável de aproximação das empresas com universidades seja por meio de uma iniciativa de responsabilidade social ou de recrutamento. Participar desse hackathon, no entanto, reforçou para nós que essa leitura é limitada e que nos faz perder oportunidades reais.
O ambiente acadêmico produz um tipo de raciocínio que o mercado tende a deixar de lado com o tempo: a disposição para questionar premissas, para experimentar sem medo de errar, para buscar referências fora do próprio setor. Quando um estudante olha para um problema de seguro sem o filtro de “como sempre foi feito”, ele está, potencialmente, enxergando algo que nós muitas vezes não conseguimos mais ver.
Para a Horiens, que tem no Risk Labs – nosso laboratório de riscos – um espaço dedicado à inovação aplicada à gestão de riscos, além de carregar em seu DNA uma atuação profunda e personalizada para cada cliente, esse tipo de interação é mais do que estratégica: é instigante e fértil para a inovação.
A próxima geração de profissionais que vai operar modelos de risco, construir plataformas de dados e liderar decisões está sendo formada agora. Quanto mais cedo esses profissionais entrarem em contato com a complexidade real do setor, melhores serão as decisões que tomarão no futuro e mais preparado estará o mercado para os desafios que ainda não conseguimos nem nomear.
Uma via de mão dupla
A troca que vivemos ao longo do hackathon não foi proveitosa de um lado só. Saímos com perguntas que não tínhamos quando chegamos. Com perspectivas que desafiaram algumas certezas. Com ideias e aprendizados que já inclusive estão sendo úteis em nosso dia a dia. Com a lembrança de que inovação não é algo necessariamente complexo e grandioso. Ela mora na inquietação que não devemos deixar morrer em nós, profissionais com mais experiência e tempo de jogo.
O futuro do seguro – mais acessível para a população e mais integrado à estratégia das organizações – vai exigir colaboração entre gerações, entre disciplinas, entre a experiência de quem viveu os ciclos e a coragem de quem ainda não tem nada a perder ao propor o novo.
Iniciativas como o Hackathon da FGV mostram que esse espaço de construção conjunta é possível. Cabe às empresas e a nós, profissionais do setor de riscos e seguros, decidir se queremos ocupá-lo ou apenas observar de longe.
Eduardo Damião é Diretor de Riscos e Seguros da Horiens. Marcio Santos lidera o Risk Labs da Horiens.